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[any member of this listserv who would want to translate mia couto's piece for us would be welcome to do so ken harrow, ed.] >x posted from Sender: H-Net Discussion List on >History and Study of West Africa <H-WEST-AFRICA@H-NET.MSU.EDU> >X-Posted from H-Net Discussion List on >Portuguese-speaking African Countries <H-LUSO-AFRICA@H-NET.MSU.EDU> >From: "Nicholas Creary, Ohio University" <creary@OHIO.EDU> > >----------- > >From: Franz Heimer > <Franz.Heimer@iscte.pt> >Date: 15 November 2008 > >E se Obama fosse africano? >Por Mia Couto > >Os africanos rejubilaram com a vitŰria de Obama. Eu fui um deles. Depois de >uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as l·grimas >corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu >era tambČm um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson >Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho >de dignificaÁ“o de ˇfrica. > >Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano n“o era apenas >um homem que falava. Era a sufocada voz da esperanÁa que se reerguia, >liberta, dentro de nŰs. Meu coraÁ“o tinha votado, mesmo sem permiss“o: >habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitŰria sem dimensžes. Ao sair ý >rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos >respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitŰria de Obama >n“o foi a de uma raÁa sobre outra: sem a participaÁ“o massiva dos americanos >de todas as raÁas (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da >AmČrica n“o nos entregariam motivo para festejarmos. > >Nos dias seguintes, fui colhendo as reacÁžes eufŰricas dos mais diversos >recantos do nosso continente. Pessoas anŰnimas, cidad“os comuns querem >testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas >reservas, das mensagens solid·rias de dirigentes africanos. Quase todos >chamavam Obama de "nosso irm“o". E pensei: estar“o todos esses dirigentes >sendo sinceros? Ser· Barack Obama familiar de tanta gente politicamente t“o >diversa? Tenho d™vidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, >n“o somos capazes de ver os nossos prŰprios racismos e xenofobias. Na pressa >de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as liÁžes que nos chegam >desse outro lado do mundo. > >Foi ent“o que me chegou ýs m“os um texto de um escritor camaronÍs, Patrice >Nganang, intitulado: " E se Obama fosse camaronÍs?". As questžes que o meu >colega dos Camaržes levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas >agora em redor da seguinte hipŰtese: e se Obama fosse africano e concorresse >ý presidÍncia num paĚs africano? S“o estas perguntas que gostaria de >explorar neste texto. > >E se Obama fosse africano e candidato a uma presidÍncia africana? > >1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das >ˇfricas) inventaria mudanÁas na ConstituiÁ“o para prolongar o seu mandato >para alČm do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para >voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a >permanÍncia de um mesmo presidente no poder em ˇfrica. Uns 41 anos no Gab“o, >39 na LĚbia, 28 no Zimbabwe, 28 na GuinČ Equatorial, 28 em Angola, 27 no >Egipto, 26 nos Camaržes. E por aĚ fora, perfazendo uma quinzena de >presidentes que governam h· mais de 20 anos consecutivos no continente. >Mugabe ter· 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impŮs acima do >veredicto popular. > >2. Se Obama fosse africano, o mais prov·vel era que, sendo um candidato do >partido da oposiÁ“o, n“o teria espaÁo para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, >por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camaržes: seria agredido fisicamente, seria >preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de ˇfrica >n“o toleram opositores, n“o toleram a democracia. > >3. Se Obama fosse africano, n“o seria sequer elegĚvel em grande parte dos >paĚses porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as >portas da presidÍncia a filhos de estrangeiros e a descendentes de >imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda est· sendo questionado, >no seu prŰprio paĚs, como filho de malawianos. Convenientemente >"descobriram" que o homem que conduziu a Z’mbia ý independÍncia e governou >por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse >tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenÁžes golpistas, >o nosso Kenneth Kaunda (que d· nome a uma das mais nobres avenidas de >Maputo) ser· interdito de fazer polĚtica e assim, o regime vigente, se ver· >livre de um opositor. > >4. Sejamos claros: Obama Č negro nos Estados Unidos. Em ˇfrica ele Č mulato. >Se Obama fosse africano, veria a sua raÁa atirada contra o seu prŰprio >rosto. N“o que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver >nos seus lĚderes competÍncia e trabalho sČrio. Mas as elites predadoras >fariam campanha contra alguČm que designariam por um "n“o autÍntico >africano". O mesmo irm“o negro que hoje Č saudado como novo Presidente >americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", >dos de outra raÁa, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?). > >5. Se fosse africano, o nosso "irm“o" teria que dar muita explicaÁ“o aos >moralistas de serviÁo quando pensasse em incluir no discurso de >agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os >advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas - tantas vezes >no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade Č um inaceit·vel vĚcio >mortal que Č exterior a ˇfrica e aos africanos. > >6. Se ganhasse as eleiÁžes, Obama teria provavelmente que sentar-se ý mesa >de negociaÁžes e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial >degradante que mostra que, em certos paĚses africanos, o perdedor pode >negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. >Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em >infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos >devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que n“o correm a >favor dos ditadores. > >Inconclusivas conclusžes > >Fique claro: existem excepÁžes neste quadro generalista. Sabemos todos de >que excepÁžes estamos falando e nŰs mesmos moÁambicanos, fomos capazes de >construir uma dessas condiÁžes ý parte. > >Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano n“o seriam >impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da >governaÁ“o fonte de enriquecimento sem escr™pulos. > >A verdade Č que Obama n“o Č africano. A verdade Č que os africanos - as >pessoas simples e os trabalhadores anŰnimos - festejaram com toda a alma a >vitŰria americana de Obama. Mas n“o creio que os ditadores e corruptos de >ˇfrica tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa. > >Porque a alegria que milhžes de africanos experimentaram no dia 5 de >Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que >conheciam da sua experiÍncia com os seus prŰprios dirigentes. Por muito que >nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou >conheceram dirigentes preocupados com o bem p™blico. > >No mesmo dia em que Obama confirmava a condiÁ“o de vencedor, os notici·rios >internacionais abarrotavam de notĚcias terrĚveis sobre ˇfrica. No mesmo dia >da vitŰria da maioria norte-americana, ˇfrica continuava sendo derrotada por >guerras, m· gest“o, ambiÁ“o desmesurada de polĚticos gananciosos. Depois de >terem morto a democracia, esses polĚticos est“o matando a prŰpria polĚtica. >Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistÍncia e o cinismo. > >SŰ h· um modo verdadeiro de celebrar Obama nos paĚses africanos: Č lutar >para que mais bandeiras de esperanÁa possam nascer aqui, no nosso >continente. Š lutar para que Obamas africanos possam tambČm vencer. E nŰs, >africanos de todas as etnias e raÁas, vencermos com esses Obamas e >celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.
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